7. ESPECIAL  VTIMAS DO CRIME. 25.7.12

1. A CICATRIZ DA ALMA
2. ARTIGO  TULIO KAHN  O QUE A POBREZA (E A RIQUEZA) TEM A VER COM O CRIME
3. O CRCULO VICIOSO DO CRIME E COMO ROMP-LO
4. O TRAUMA QUE MATA

1. A CICATRIZ DA ALMA
O medo de bandidos est transformando o comportamento dos brasileiros. Mas, pela primeira vez, as estatsticas indicam que as curvas do crime podem mudar de direo. E finalmente comear a cair.
LAURA DINIZ

	O Brasil vive uma situao indita em relao ao crime.  Observada de perto, ela  calamitosa. O nmero de assassinatos explodiu desde os anos 1980 e em muitas regies do pas continua a aumentar  a mdia nacional est, desde 2005, no inaceitvel patamar de 26 brasileiros mortos por ano entre cada 100.000 habitantes.  Os roubos no param de crescer. Em um anos, ao menos 2 milhes de brasileiros foram vtimas do delito, e isso contabilizadas apenas as capitais.  O reflexo dessa situao est captado em pesquisa do Ministrio da Justia, publicada com exclusividade por VEJA.  Ela mostra que o temor de ser vtima de bandidos mudou os hbitos dos brasileiros de todas as capitais do pas.  Em Braslia, 63% dos moradores j evitam sair de casa  noite.  Em So Paulo, 60% da populao s usa os caixas eletrnicos e vai ao banco em ltimo caso.  No Rio, 80% dos cariocas deixaram de ir s ruas levando muito dinheiro ou objetos de valor.  Em Curitiba, 17% dos habitantes instalaram alarmes eletrnicos em casa, e 10% dos moradores de Fortaleza pagam vigias armados para proteger suas ruas ou prdios (veja os grficos no longo da reportagem). O crime est ditando o comportamento dos brasileiros  e, como nas guerras, isso equivale  a uma rendio.  Mas, quando o quadro atual  observado com mais distanciamento e  luz das estatsticas, chega-se a uma concluso surpreendente. E positiva. Impulsionado pelo crescimento econmico da ltima dcada, o pis j vislumbra uma mudana radical no perfil da criminalidade.  E ela aponta para uma diminuio acentuada dos assassinatos.  Isso vem ocorrendo em alguns centros urbanos, em especial em So Paulo e no Rio, onde a taxa de homicdios despencou 70% e 50% nos ltimos dez anos.
     A perspectiva de uma queda  generalizada  dos assassinatos no Brasil leva em conta fatores de natureza diversa: h os consolidados, e positivos, como o aumento da renda da populao, os no to consolidados, mas desejveis, como o aprimoramento dos mecanismos de segurana, e os inevitveis, embora no to positivos assim, como a reduo da proporo de jovens no total da populao. Isso porque  nessa faixa etria, que vai at os 25 anos, que ocorre a maior parte dos homicdios.
     Juntando-se todos esses elementos, e desde que o pas no seja abalado por nenhum cataclismo econmico, no  mais impensvel que o Brasil possa vir a ter um perfil criminal de nao desenvolvida.  o que enxergam analistas como Cludio Beato, coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurana Pblica da Universidade Federal de Minas Gerais, Tulio Kahn, doutor em cincia poltica pela USP, e Julio Jacobo, organizador dos Mapas da Violncia.
     A equao em que se baseiam os especialistas para apostar nessa tese  simples. O assassinato  um delito relacionado  pobreza no porque a misria leve ao crime, mas porque, nos locais onde a pobreza impera  e o poder pblico est ausente ou desorganizado , costuma-se instalar uma cultura que os especialistas chamam de resoluo violenta dos conflitos. Ela rene famlias desestruturadas, jovens menos educados, com menos opes de lazer e mais acesso a armas e lcool, numa combinao explosiva que tende a aumentar o nmero de mortes violentas. A diminuio da pobreza, com a gradual reverso dessa cultura, levaria, portanto, a uma diminuio dos assassinatos.
     O Brasil, ainda que de forma muito desigual, deixou de ser pobre, embora esteja longe de ser desenvolvido. Aqui, por enquanto, o crescimento econmico provocou uma queda localizada nos homicdios e um aumento generalizado dos crimes contra o patrimnio. A explicao clssica para esse segundo fenmeno  que as pessoas esto ganhando mais dinheiro, comprando mais bens, como carros e relgios, e que assim, de posse de uma maior oferta de produtos, ficam mais sujeitas a ser assaltadas.
     De novo, os cenrios diferem dependendo da regio. O Norte e o Nordeste  onde a presena do poder pblico  fraca e a polcia, pouco eficiente  convivem com assassinatos e roubos em alta. Em relao ao crime, ainda esto mais prximos da Colmbia e da frica do Sul do que do Brasil do futuro. J So Paulo e o Rio se encontram em uma posio bem mais avanada nessa escala  vivem, hoje, o que os Estados Unidos atravessaram na dcada de 90: os assassinatos comearam a declinar, mas os roubos ainda estavam em alta. A questo, agora,  descobrir quando, e se, o Brasil atingir a prxima etapa, aquela em que todas as curvas de criminalidade apontam para baixo. Isso, evidentemente, no ocorrer por inrcia  as projees no triunfam onde os homens fracassam. Mas o Brasil j coleciona resultados promissores na rea (veja o quadro na pg, 88). Em So Paulo, o uso da inteligncia policial e a aplicao de uma regra de ouro segundo a qual policiais e peritos devem analisar a cena do crime em at 48 horas provocaram a reduo drstica de assassinatos. Em meados dos anos 2000, o Rio trilhou alguns dos passos paulistas e obteve uma queda de cerca de 50% em sua taxa de homicdios.
     Esse modelo de investigao funciona bem, como mostrou um projeto-piloto dos governos estadual e federal em Alagoas, iniciado h um ms. Para reduzir a taxa de homicdios do estado, que  a pior do pas, a polcia estudou o perfil dos crimes, montou um plano estratgico de rondas de policiais militares, comprou equipamentos para os peritos e mandou que os policiais civis concentrassem a investigao nas primeiras horas depois do crime. Nos dez dias iniciais de julho, o nmero de mortes em Macei caiu pela metade em relao ao ano passado. Dos treze assassinatos ocorridos no perodo, onze foram esclarecidos. No mbito federal, em novembro deve entrar em funcionamento o Sistema Nacional de Informaes de Segurana Pblica, Prisionais e sobre Drogas (Sinesp), por meio do qual o governo reunir estatsticas de todos os estados e conhecer as nuances regionais da criminalidade. Mapear o crime  considerado por especialistas um ponto elementar para melhor combat-lo. S repassaremos dinheiro para quem mandar os dados e de acordo com as necessidades apontadas pelos nmeros. Nossos investimentos prioritrios sero em inteligncia e, a partir da, tecnologia e percia, diz Regina Miki, secretria nacional de Segurana Pblica.
     Essas projees otimistas podem no fazer diferena para pessoas que, como as entrevistadas nesta reportagem, perderam filhos nas mos de criminosos, viram amigos morrer num episdio violento ou saram mutiladas, fsica e emocionalmente, de um deles. Mesmo para os que nunca passaram por circunstncias parecidas  mas que, como todo brasileiro morador de rea urbana, saem de casa todos os dias com uma leve e j familiar sensao de que algo ameaador ronda a eles e  sua famlia , as curvas promissoras das estatsticas so quase uma abstrao. Elas apontam para o futuro  e no diminuem a dor de episdios passados, nem a sensao de insegurana do presente. E essa sensao  predominante e poderosa, mesmo nas cidades em que a situao do crime melhorou.
     H excees, no entanto. Florianpolis, por exemplo,  a capital brasileira em que os moradores mais dizem se sentir seguros, embora os ndices de criminalidade no sejam to mais baixos assim. Um dos motivos para isso, diz o pesquisador Guaracy Mingardi,  que l no s a polcia funciona satisfatoriamente, mas tambm outros servios pblicos so considerados eficientes. Quando a escola  boa, o hospital, eficiente, e o transporte funciona, o cidado infere que as foras de segurana tambm so efetivas, a percepo de insegurana arrefece e a da impunidade tambm. O que conduz a um crculo virtuoso no qual o Brasil nunca teve tantas condies de se inserir. A luz ainda  tnue, mas j d para avist-la no fim do tnel.

DE VOLTA DO INFERNO
Em dezembro de 2006, a modelo capixaba Beatriz Furtado, hoje com 34 anos, pegou um nibus rumo a So Paulo para fazer um ensaio fotogrfico. Ao passar pela Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, o veculo foi incendiado por bandidos. Nove passageiros morreram. Ela foi resgatada com queimaduras em 35% do corpo, passou 21 dias em coma e quase seis meses internada. Sobreviveu, mas traz consigo cicatrizes no rosto e no corpo e lembranas que nunca se apagaro. O sentimento maior  de revolta. De repente, tudo desmoronou. Quase morri, perdi minha profisso, gastei todo o dinheiro que juntei na vida com tratamentos e cirurgias e meu casamento de nove anos acabou, conta. Fiquei um ano sem sair de casa, tinha pesadelos constantes e chegava a urinar na cama. Fui ao inferno e voltei.

MARCADOS PARA SEMPRE
Alexandre de Almeida e seu filho Diogo, ento com 16 anos, abasteciam o carro em um posto de gasolina perto de casa, em Sapucaia do Sul (RS), em 2009, quando o lugar foi assaltado por dois homens. Nesse momento, um terceiro criminoso chegou para fazer um acerto de contas com os assaltantes.  No confronto, um dos ladres atirou no adolescente.  Almeida socorreu o filho e o atirador, tambm ferido.  Diogo ficou paraplgico e o bandido sobreviveu inclume.  Empenhado em no deixar o criminoso impune, o pai acabou ameaado de morte por comparsas dele e agora anda armado para se defender  mas conseguiu o que queria: o bandido est preso. Diogo perdeu dois anos na escola e at hoje se assusta quando ouve um barulho muito alto ou quando voc policiais armados.

MEDO DE TUDO
Depois de testemunhar em ex-aluno matar doze colegas dela no ano passado, na escola Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro, Jady Ramos tem medo de tudo e no fica longe da me por nada.  Tem pesadelos, no dorme mais no escuro nem na casa das amigas.  H poucas semanas, estava com a me em um supermercado, viu um homem parecido com o atirador e quase desmaiou.  Jady gostaria de mudar de colgio, mas aquela  a nica escola pblica da regio.  Todos os dias, eu me lembro daquele horror.

CEGO AOS 29 ANOS
Em 2008, Luiz Lamac parou o carro em uma rua de belo Horizonte (MG) para atender o celular e foi surpreendido por um homem armado. Por instinto, engatou a primeira marcha.  O bandido atirou em sua cabea, jogou-o na rua e fugiu com o carro.  Cego aos 29 anos, Luiz entrou em depresso, mas se reergueu graas  terapia.  Em 2010, lanou um livro sobre a sua recuperao.  No ano passado, casou-se. Hoje, garante ter superado o trauma.  Mas o drama da viso ser eterno.  Eu nunca mais vou saber o que  ser livre.  O assaltante logo estar em liberdade.

S SOBROU A DOR 
Depois de um jogo de futebol com amigos, Diego Rodrigues, de 33 anos, voltava
para casa de moto, em Sapucaia do Sul (RS), quando foi morto com trs tiros, um deles na cabea. Deixou mulher e um filho. Com medo, os pais de Diego, Eduardo e Regina, mudaram-se de cidade, mas carregaram os traumas do crime. Gastam 800 reais por ms em medicamentos como antidepressivos. No vou mais a jogos de futebol, diz o pai. Era o passatempo predileto de Diego. Meu passeio agora  ir ao cemitrio, ver o tmulo do meu filho. S sobrou a dor, diz a me.

BARRICADAS NAS PORTAS
Depois de ter a casa assaltada, em Belm (PA), em 2010, a produtora cultural Michelle Maia de Souza viveu seis meses de intenso pavor. Toda noite, antes de dormir, usava uma mesa e a geladeira para montar barricadas nas portas de entrada e da cozinha. Depois, amarrava panelas com barbantes para fazer barulho caso alguma delas se abrisse. Hoje, Michelle est mais tranquila, mas evita sair depois que escurece. Nunca mais quero sentir que algum tem o poder de decidir se vou continuar viva ou no.

PAVOR DENTRO DE CASA
Era uma madrugada de domingo, no Rio de janeiro, quando Luiza de Melo Ferreira acordou com um barulho em seu quarto.  Estava to sonolenta que s entendeu a situao quando um dos assaltantes encostou uma arma em sua cabea, cena que at hoje a assombra.  Eles faziam ameaas o tempo todo, queriam um cofre que no existia. Diziam que iam matar todo mundo, conta Luiza, estudante de moda, hoje com 20 anos.  Para se recuperar, fez terapia e tomou remdios.  A famlia se mudou de casa, mas ela ainda tem dificuldade de falar do assunto.

TODOS OS DIAS NE DELEGACIA
Desde que o filho Tony foi morto, em 2010, a aposentada Tnia Torrico, de so Paulo, j foi internada seis vezes por colapso nervoso. Por causa do diabetes e da presso alta, no podia tomar antidepressivos e s h um ms conseguiu acertar um remdio para dormir.  O objetivo de sua vida passou a ser encontrar o assassino e, por isso, vai  delegacia quase todos os dias.  Ainda no teve foras para visitar o tmulo do filho, mas montou dois pequenos altares em casa, onde reza para ele.  Toda noite eu deixo a luz do quarto dele acesa para fingir que ele ainda est l.

PORTA TRANCADA SEMPRE
Quando ladres invadiram o restaurante de Carlos Alberto Bastos em Belm (PA), em 2003, o empresrio foi acuado por um deles e reagiu como pde.  Peguei um caldeiro com leo fervente e dei-lhe um banho, com Bastos.  Na fuga, os bandidos atiraram e feriram o filho de Bastos na cabea.  Ele ficou trs meses internado, mas no h sequelas.  Minha mulher tomou antidepressivos por um ano e at hoje  meio paranoica com segurana. Hoje, o restaurante de Bastos funciona com o porta trancada, que ele s abre para cliente entrar e sair.

OS  NMEROS DO MEDO (pesquisa realizada com 75.000 pessoas, entre 2009 e 2010, pelo Datafolha e pelo Centro de estudos de Criminalidade e segurana Pblica (Crisp) da Universidade federal de Minas Gerais)
Pesquisa do Ministrio da Justia nas 27 capitais mostra como os brasileiros mudaram seus hbitos para escapar dos bandidos

EVITAM SAIR  NOITE OU CHEGAR MUITO TARDE EM CASA POR CAUSA DA CRIMINALIDADE
Manaus 83,9%
Belm 82,3%
Macei 80,4%
Joo Pessoa 80,1%
Boa vista 78,2%
Teresina 76,1%
So Lus 75,7%
Rio branco 74,7%
Salvador 74,5%
Fortaleza 74,0%
Natal 74,0%
Goinia 73,2%
Cuiab 72,7%
Macap 72,1%
Recife 69,9%
Porto Velho 68,8%
Aracaju 67,0%
Campo Grande 64,9%
Belo Horizonte 64,8%
So Paulo 63,6%
Braslia 63,2%
Rio de Janeiro 63,3%
Curitiba 62,0%
Porto alegre 61,7%
Palmas 60,0%
Vitria 53,0%
Florianpolis 51,6%

DEIXAM DE IR A ALGUNS LOCAIS DA CIDADE POR CAUSA DA CRIMINALIDADE
Belm 74,9%
Fortaleza 71,9%
Macap 70,3%
Macei 68,6%
So Lus 67,6%
Salvador 67,4%
Rio branco 66,6%
Natal 66,2%
Joo Pessoa 65,9%
Goinia 65,8%
Manaus 62,7%
Cuiab 62,6%
Porto Velho 60,8%
Teresina 60,7%
Recife 60,1%
Campo Grande 59,4%
Belo Horizonte 58,2%
Braslia 56,3%
Boa vista 56,1%
Rio de Janeiro 55,7%
So Paulo 55,3%
Porto alegre 55,0%
Aracaju 53,1%
Florianpolis 52,4%
Curitiba 52,1%
Vitria 51,8%
Palmas 46,6%

DEIXAM DE IR A CERTOS BANCOS E CAIXAS ELETRNICOS POR CAUSA DA CRIMINALIDADE
Belm 70,5%
Salvador 65,5%
Joo Pessoa 61,8%
Fortaleza 61,3%
So Paulo 59,4%
Cuiab 59,2%
Macap 59,1%
Recife 59,0%
Teresina 58,2%
Goinia 57,7%
Manaus 57,0%
Macei 55,4%
Natal 55,1%
So Lus 54,4%
Vitria 53,7%
Curitiba 52,7%
Rio branco 52,7%
Belo Horizonte 52,2%
Campo Grande 52,1%
Braslia 50,5%
Aracaju 49,9%
Porto Velho 47,0%
Rio de Janeiro 46,4%
Boa vista 41,9%
Porto alegre 40,1%
Florianpolis 39,5%
Palmas 29,4%

PROPORO DE ENTREVISTADOS QUE POSSUEM RESIDNCIA COM ALARME
Curitiba 16,8%
Belo Horizonte 15,6%
Vitria 15,3%
Porto alegre 15,1%
Florianpolis 14,9%
Goinia 13,7%
Palmas 11,5%
So Paulo 10,2%
Cuiab 9,9%
Rio de Janeiro 9,2%
Campo Grande 8,9%
Braslia 7,9%
Macei 7,4%
Natal 7,1%
Fortaleza 6,9%
Teresina 6,4%
Porto Velho 5,9%
Macap 5,8%
Salvador 5,1%
So Lus 4,6%
Joo Pessoa 4,4%
Belm 4,0%
Boa vista 3,7%
Rio branco 3,5%
Aracaju 3,3%
Recife 3,2%
Manaus 2,1%

PROPORO DE ENTREVISTADOS QUE POSSUEM RESIDNCIA COM VIGIA(S) ARMADO(S)
MACEI 10,8%
FORTALEZA 10,4%
NATAL 9,2%
SO PAULO 7,1%
CURITIBA 6,3%
PORTO ALEGRE 6,2%
SO LUS 5,6%
TERESINA 5%
BELM 4,8%
GOINIA 4,7%
FLORIANPOLIS 4,7%
BRASLIA 4,6%
JOO PESSOA 4,4%
RIO DE JANEIRO 3,6%
RECIFE 3,5%
ARACAJU 3,4%
VITRIA 3,3%
CUIAB 3,2%
PALMAS 3%
CAMPO GRANDE 2,7%
SALVADOR 2,6%
RIO BRANCO 2,4%
MACAP 2,2%
PORTO VELHO 2%
BELO HORIZONTE 1,7%
MANAUS 0,7%
BOA VISTA 0,2%

COM REPORTAGEM DE JULIA CARVALHO, LESLIE LEITO, KALLEO COURA, MARCELO SPERANDIO, ALESSANDRA MEDINA, ANDR ELER E RAFAEL FOLTRAM


2. ARTIGO  TULIO KAHN  O QUE A POBREZA (E A RIQUEZA) TEM A VER COM O CRIME
     Estamos acostumados a associar a criminalidade  pobreza. O raciocnio faz sentido se estamos falando de crimes contra a pessoa, como os homicdios: eles tendem a ocorrer nas reas mais pobres e perifricas dos grandes centros urbanos, onde h elevado consumo de lcool, disponibilidade de armas, poucas opes de lazer e uma cultura violenta de resoluo de conflitos. Atingem em especial a populao masculina jovem, pobre, no branca e pouco escolarizada. Mas os efeitos da pobreza sobre a criminalidade so menos bvios quando se trata dos crimes contra o patrimnio, como roubos e furtos. Por um lado, com um aumento geral da renda e do emprego, h uma diminuio da propenso ao crime, j que outras opes, dentro da lei, esto muito mais ao alcance da mo. No entanto, sob outra tica, o aumento da renda geralmente implica maior disponibilidade de bens. Cresce a oferta de objetos cobiados, como automveis, celulares e relgios. Em outras palavras, h mais material na praa para ser roubado. O efeito do crescimento econmico sobre os crimes patrimoniais pode ser ainda maior se esse crescimento for acelerado e desigual, como  o caso brasileiro recente.
     O economista Gary Becker, ganhador do Nobel de 1992, mostrou j nos anos 1970 como criminosos levam em conta as oportunidades no momento de optar pelo mercado legal ou ilegal, calculando os benefcios da ao criminosa em comparao com as probabilidades de ser detectado e punido. Assim, onde a punio  falha, como no Brasil, faz mais sentido para muitas pessoas optar pelo crime. Becker mostrou tambm a correlao entre renda mdia local e crimes patrimoniais, situao que se comprova cotidianamente no Brasil: as estatsticas criminais e as pesquisas de vitimizao corroboram que so as reas mais ricas e as pessoas mais abastadas e escolarizadas as maiores vtimas de furtos e roubos. No  preciso ser um criminoso genial para concluir que  a que se encontram as maiores oportunidades.
     Essa mesma lgica se aplica ao nvel de desenvolvimento dos pases, ainda que de forma no linear: as maiores taxas dos chamados crimes contra o patrimnio no se encontram nos pases muito pobres nem nos muito ricos. So precisamente as naes de nvel intermedirio de desenvolvimento econmico, como o Brasil, que sofrem com os maiores ndices de criminalidade do planeta. Isso se deve a uma conjuno desfavorvel de fatores: crescimento rpido e desorganizado das cidades, baixa expectativa de punio, grande oferta de bens subtraveis, elevada desigualdade social, alto consumo de lcool e drogas e ausncia de freios morais, entre outros. Isso significa que, nesse estgio intermedirio, pases como o Brasil convivem ao mesmo tempo tanto com crimes associados  pobreza  como as elevadas taxas de homicdio  quanto com os derivados da riqueza  como com roubos e furtos.
     Mas j existem evidncias em alguns estados, como So Paulo e Rio de Janeiro, de que o Brasil em algumas dcadas deve assumir um perfil criminal de pas desenvolvido. Primeiro, com a diminuio dos nveis de homicdio. E, num segundo momento, com uma queda nos roubos e furtos, em razo da reduo da desigualdade social, da proporo de jovens no total da populao, do ritmo de urbanizao desorganizada e do grau de impunidade.  o que sugerem as estatsticas internacionais, quando comparamos taxas criminais entre os diversos grupos de pases. Enquanto essa mudana de patamar no acontece, o jeito  aprimorar e modernizar as instituies de justia criminal brasileiras, cujo desempenho ainda deixa muito a desejar.

Tulio Kahn  doutor em cincia poltica pela USP e foi diretor do Departamento Nacional de Segurana Pblica no Ministrio da Justia durante o governo Fernando Henrique Cardoso.


3. O CRCULO VICIOSO DO CRIME E COMO ROMP-LO

BANDIDOS IMPUNES, POPULAO DESCRENTE
Muitas vtimas de crimes deixam de registrar a ocorrncia na polcia por no acreditar que eles sero solucionados ou por receio de enfrentar a burocracia das delegacias. A mdia nacional de notificao, segundo o Ministrio da Justia,  de apenas 30%.
COMO RESOLVER - Reverter a ideia de que a polcia  ineficiente  uma tarefa que exigir tempo e mudanas profundas. J estimular a comunicao de ocorrncias  bem mais simples. Em So Paulo, por exemplo, desde 2000,  possvel registrar boletins pela internet. A notificao dos crimes  fundamental para que a polcia  possa mape-los e, assim, melhorar sua eficincia.

POLCIA INEFICIENTE, POUCOS CASOS CHEGAM  JUSTIA
Alm da subnotificao, que faz a investigao perder foco e preciso, duas situaes contribuem para os maus resultados do trabalho policial: a falta de estatsticas e a precariedade da percia. A maioria dos estados no tem equipamentos nem peritos em nmero suficiente para buscar as evidncias que serviro para encontrar e condenar os criminoso.
COMO RESOLVER - Em Nova York, a polcia criou um sistema de compartilhamento de dados que rene e cataloga todos os crimes ocorridos nos distritos da cidade. Com isso, conseguiu identificar as regies mais problemticas e concentrar esforos nelas. A criminalidade caiu 65% em quinze anos. No Brasil, o estado de Alagoas recebeu em junho um investimento pesado em peritos, equipamentos e inteligncia. Dos treze homicdios ocorridos em Macei nos primeiros dez dias de julho, onze foram esclarecidos.

DENNCIA FRACA, JUDICIRIO LENTO, SUSPEITOS LIVRES
Planejamento e percia precrios resultam numa investigao malfeita, que, por sua vez, termina numa denncia frgil. Isso faz com que o juiz acabe absolvendo o suspeito por falta de provas ou por causa de alguma irregularidade formal.
COMO RESOLVER - Nos Estados Unidos, a polcia trabalha para o Ministrio Pblico, seguindo ordens dos promotores. Assim, as investigaes so mais eficientes e as denncias, mais embasadas, o que aumenta a possibilidade de condenao dos culpados.


PENAS BRANDAS, CRIMINOSOS SOLTOS
Nos pouqussimos casos em que o bandido que cometeu o crime vai para trs das grades,  grande a probabilidade de ele sair em pouco tempo. Condenados  pena mnima por roubo, por exemplo, ficam apenas um ano e quatro meses na priso.
COMO RESOLVER - Aumentando o tempo necessrio para que a pena progrida do regime fechado para os regimes mais leves. Para reduzir a criminalidade, os Estados Unidos aprovaram em 1987 uma lei federal que exige que todos os presos por crime violento cumpram ao menos 85% da pena. O anteprojeto do novo Cdigo Penal aumenta de um sexto para um tero o tempo mnimo de bandidos violentos na cadeia.


5. O TRAUMA QUE MATA
     Aos 21 anos, Ian Morrison realizou o sonho de muitos jovens americanos ao entrar para as Foras Armadas. Exmio piloto de helicptero, com quatro anos de experincia foi enviado ao Iraque e a Fort Hood, no Texas, a maior base militar dos Estados Unidos. Mas em dezembro de 2011, de uma hora para a outra, Morrison se transformou. O militar, ento com 26 anos, passou a ter pesadelos e a sofrer de insnia. Nos dias de folga, irritava-se com barulhos como o da campainha de casa. Tinha crises de ansiedade a ponto de s conseguir trabalhar  base de calmantes. Na noite de 21 de maro deste ano, Ian se matou com um tiro na cabea. A histria ilustra, tristemente, uma tragdia do nosso tempo. A cada dia, um soldado comete suicdio, um ndice maior que o das mortes ocorridas na Guerra do Afeganisto. A principal causa do problema  uma doena psquica conhecida como stress ps-traumtico. Caracterizada por recordaes vvidas de um acontecimento dramtico, ela provoca sensaes fsicas e emocionais semelhantes s experimentadas no episdio desencadeador, alm de dificuldade de concentrao, insnia e, em casos extremos, suicdio. O distrbio acomete 30% dos soldados americanos.
     O stress ps-traumtico, no entanto, no  restrito ao universo daqueles que enfrentam guerras sangrentas. Vtimas de violncia urbana tm de lidar com a doena em toda parte do planeta. Estima-se que 10% dos brasileiros sofram do transtorno, sobretudo os moradores das grandes cidades. Um levantamento conduzido pela Universidade Federal de So Paulo (Unifesp) com 3000 pacientes mostrou que o assalto  a situao mais comum associada  doena nas capitais do pas. Os tratamentos, que consistem no uso de ansiolticos, antidepressivos e em sesses de psicoterapia, curam uma minoria. A cada 100 doentes, apenas vinte se veem livres dos sintomas definitivamente, diz o psiquiatra Marcelo Feij de Mello, da Unifesp. Na maioria das vezes, o objetivo da terapia  fazer com que o paciente passe a conviver com os sintomas, de forma que eles atrapalhem o mnimo possvel a sua rotina. Alm da complexidade dos mecanismos da doena  so pelo menos cinco reas cerebrais envolvidas , a grande dificuldade teraputica est no diagnstico. A doena d sinais que podem ser facilmente confundidos com crises passageiras de ansiedade, explica Feij. O soldado americano Ian Morrison chegou a procurar ajuda mdica do Exrcito. Em resposta, ouviu que precisava de descanso.
ADRIANA DIAS LOPES

